Ir para o conteúdo

← Conteúdos · Conteúdo

SBN na Prática “parte 2” traz cases de espaço público, condomínios e de um bairro planejado em Bertioga com soluções baseadas na natureza

Por Comunicação ·

A segunda etapa do painel “SBN na prática: Experiências e Aplicações”, no seminário sobre soluções baseadas na natureza (SBN) no desenvolvimento urbano, reuniu casos de regularização fundiária, parcerias para o espaço público, paisagismo de condomínios horizontais e operação de um bairro planejado h

A segunda etapa do painel “SBN na prática: Experiências e Aplicações”, no seminário sobre soluções baseadas na natureza (SBN) no desenvolvimento urbano, reuniu casos de regularização fundiária, parcerias para o espaço público, paisagismo de condomínios horizontais e operação de um bairro planejado há mais de 40 anos. A condução foi da coordenadora do GT SBN e diretora do Secovi-SP e da Aelo, Ruth Portugal. Participaram a sócia da Levisky Arquitetos e conselheira da AsBEA-SP, Adriana Levisky, a engenheira ambiental e bióloga da Poli-USP Juliana Alvarenga Alencar, que falou por videoconferência, o arquiteto paisagista Marcelo Novaes e o engenheiro civil da Sobloco Paulo Velzi, também por videoconferência. Ao abrir a etapa, Ruth anunciou o rumo dos trabalhos. “Vamos ter outros cases bem aplicados, implantados”, afirmou.

Adriana começou explicando a escolha dos casos. “A Ruth me pediu, a princípio, para trazer um caso específico, e eu pensei em trazer alguns outros. O escritório se chama Levisky Arquitetos Estratégia Urbana, e a gente tem um eixo organizador das concepções de projetos que gosta de chamar e pesquisar ao redor da saúde urbana. Essa é a palavra-chave que a gente busca traduzir nas pesquisas e na evolução dos nossos projetos.” Ela descreveu o modo de atuar. “O escritório trabalha de forma a estruturar, estrategicamente, empreendimentos urbanos, sejam eles no âmbito do projeto urbano ou do projeto do edifício, e bastante no espaço público, seja por uma propositura do ente público, seja buscando soluções e oportunidades de uma propositura a partir do privado, a partir de PMIs, criando parcerias entre o público e o privado.” Os três casos, todos no espaço público, foram a Cratera de Colônia, a Praça Victor Civita e o projeto Sua Rua, “com origens distintas e contratos distintos”.

Sobre a Cratera de Colônia, explicou a escala e a origem da demanda. “É uma área de 2 milhões e meio de metros quadrados no extremo sul de São Paulo, onde a gente busca, a partir de uma demanda inicial da Secretaria da Habitação, soluções de saneamento atreladas ao urbanismo e às potencialidades dessa região. Nesse sentido, a oportunidade de trabalhar com SBN foi bastante feliz, inclusive contando muito com a especialíssima participação da Geasa nesse projeto.” O projeto, chamado Museu a Céu Aberto Cratera de Colônia, parte de uma ocupação que começou na década de 1980. “Hoje a gente tem provavelmente mais de 50 mil pessoas morando nesse local. É uma comunidade com uma liderança muito forte e muito organizada, diferente de muitas outras ocupações que a gente vê ao longo do território nacional.” O território reúne singularidades ambientais e culturais. “Acredita-se que seja uma depressão geológica originária de um meteorito. Essa é uma das probabilidades maiores das pesquisas. Tem a Represa Billings, então não é difícil entender que é uma região bastante sensível, bastante irrigada, com o desafio de atrelar regularização fundiária a uma condição de trazer modelos de urbanidade em uma região ambientalmente sensível.” A cratera também é bem tombado.

O projeto começou em 2010, com a Secretaria da Habitação como contratante, e contou com parceria da Sabesp. “Foi uma parceria bastante forte, porque havia um convênio com a prefeitura que foi muito positivo no sentido de viabilizar uma série de reurbanizações de favelas.” O zoneamento da área mudou de proteção ambiental para ZEIS. “A gente precisava pacificar, num desafio tão grande como esse, uma condição viável de alinhamento entre a Secretaria do Meio Ambiente e a Secretaria da Habitação. Então ela se torna uma ZEIS, para que se buscassem soluções realistas e concretas de regularização fundiária.” Segundo Adriana, o caso traz uma lição sobre gestão. “A intenção de trazer esse projeto para o debate é justamente a perspectiva de escopos de contrato, modelos de contrato e vigência de contratos em condições tão importantes como essa de regularização fundiária.”

O desenho trata o bairro como um museu. “Não é um bairro qualquer, é um bairro que precisa ser tratado como um bairro museu. A gente não pode simplesmente resolver soluções infraestruturais e não contar a história de um lugar tão especial, com duas APAs, com duas resoluções de tombamento, com uma depressão geológica que foi tombada.” A equipe buscou integrar vários temas. “A gente trabalhou associando infraestrutura, habitação, desenho urbano, soluções baseadas na natureza, oportunidade turística e integração de conectividade com eixos de mobilidade e com o plano cicloviário, para considerar esse bairro como um bairro parque metropolitano. Pela escala, faria sentido integrar o roteiro turístico da região sul de São Paulo, e assim foi feito.”

Adriana detalhou o percurso do visitante. “As linhas laranjas correspondem a um percurso prioritário ao pedestre. Foi feito todo um projeto de pavimentação drenante e uma comunicação visual que conduz o visitante por esses caminhos, é o tapete vermelho do pedestre no meio do bairro. Nesse percurso tem uma curadoria, a proposta de uma expografia ao longo do passeio, onde as pessoas podem ter acesso a conteúdos relevantes a essa região.” O bairro tem ainda espaços cívicos. “Tem uma praça do lado da igreja, tem escolas e, embaixo, um parque sob coordenação da Secretaria do Verde, que se pretende que seja uma grande área de pesquisa e de observatórios nessa região, que é muito rica em termos de fauna e flora.” As soluções de recomposição vegetal e as biovaletas foram desenvolvidas com a assessoria da Geasa, e as calçadas, em uma área já consolidada, ganharam alargamentos pontuais. “Como a gente trata esses alargamentos: fazendo estreitamentos de esquinas, criando espaços de encontro, áreas verdes e elementos de exposição e iluminação.” O projeto, segundo ela, está cerca de 70% realizado. Adriana deixou uma pergunta ao público. “Que a gente consiga discutir de que maneira garantir a continuidade desses projetos, passadas gestões e gestões, sem perder as premissas estruturadoras do que é fundamental para eles.”

O segundo caso foi a Praça Victor Civita, em um terreno de cerca de 15 mil metros quadrados ao lado de uma área qualificada que se verticalizava. A proposta surgiu em 2001, em parceria com a Editora Abril, quando ainda não havia instrumentos consolidados para acordos desse tipo. “O modelo de parceria se fez a partir do projeto. Foi a construção de uma perspectiva objetiva de como cuidar desse espaço, e aqui o importante é falar da governança: um ente institucional civil apresentando um modelo de negócio econômico e de sustentabilidade, de governança desse espaço, a partir de um desenho, de um projeto arquitetônico, para poder ir construindo o modelo jurídico. Foi assim que a coisa aconteceu.” Ela lembrou que o processo consolidou o uso do conceito de museu em espaços públicos. “Usar o nome museu nesses espaços era algo que fazia muito sentido para despertar, para chamar a atenção para uma temática de relevância, para que as pessoas, ao andar, tentassem enxergar o que há de curiosidade e de aprendizado nesses lugares.”

A curadoria paisagística foi de Benedito Abbud. “Remete às soluções de agricultura verde com produção de energia limpa, e a gente está falando de 2006. Essas faixas coloridas são espécies relacionadas à produção de energia limpa, como mamona, algodão e amendoim. Havia também soluções de construção seca, pré-fabricada, com redução de resíduo, com madeira formal produzida a partir de manejo. A ideia era trazer toda essa temática para uma discussão de responsabilidade ambiental e responsabilidade urbana.” O trabalho com a Cetesb foi decisivo. “Teve um trabalho maravilhoso junto com a Cetesb, com uma consultoria alemã, para buscar referências sobre que critérios adotar para a reabilitação de áreas abertas contaminadas. Esse foi o primeiro espaço que foi gravado como espaço reabilitado. Foi um modelo em que a Cetesb foi construindo a partir de experimentos que o projeto propiciou.” O projeto incluiu ainda reuso e reservação de água e biotratamento.

O terceiro caso, o projeto Sua Rua, ligado ao empreendimento Cidade Matarazzo, mostra a evolução dos modelos de parceria. “Passados 20 anos, hoje a gente sabe que pode fazer uma proposta de manifestação de interesse social, e que é possível uma organização civil se ocupar, se responsabilizar pela intervenção do espaço público e pela gestão desse espaço a partir de um contrato feito com o órgão público.” O rito começou com a instituição cultural ligada ao empreendedor. “A partir de um empreendimento privado, a instituição cultural, com finalidade cultural e de ensino ligada ao empreendedor, foi a proponente. Passou por todo esse rito, que hoje é super regulamentado: apresenta a proposta, tem chamamento público, tem audiência pública, aí o acordo de cooperação, que é o contrato entre a organização civil e a prefeitura, todo o rito de licenciamentos, obra e gestão.” A intervenção ocorre em ruas próximas à Avenida Paulista, como a Rio Claro e a São Carlos do Pinhal.

Adriana descreveu o projeto. “Essa minhoca colorida é um passeio artístico desenhado pelo Estúdio Campana, e a curadoria paisagística é do Benedito Abbud. A gente trabalhou com uma modelagem urbanística e uma modelagem econômica, dentro do acordo de cooperação, e a modelagem prevê, além de uma experiência cultural com exposições temporárias ao ar livre, uma experiência gastronômica, que ainda está em andamento.” Ela destacou o caráter experimental. “Foi um projeto entendido como piloto que, a partir da lógica da parceria público-privada, assimilou a possibilidade de experimentar uma série de soluções até então não regulamentadas nos contratos públicos, como a pavimentação e os próprios jardins de chuva, que também são mobiliário urbano, porque são barreiras físicas de proteção do pedestre em relação à calçada. Tem muitas soluções de desenho urbano que não são típicas nem usuais do manual de trânsito da cidade.” O processo também gerou relações entre empreendimentos vizinhos. “Foi muito interessante esse processo, com um rito de apresentação, de absorção de solicitações, de alinhamentos de projeto, no sentido de enxergar uma pactuação na zeladoria desse lugar, que nada mais é do que desenhar uma condição positiva de vizinhança, de bons relacionamentos, se apropriando de um espaço público.” Adriana fechou com um convite ao setor. “Para o empreendedor que implanta loteamentos, ou os que se ocupam de empreendimentos privados ao longo de ruas públicas, existem perspectivas muito interessantes e potentes de qualificar, de se ocupar, de se responsabilizar por esses espaços públicos.”

Ao comentar a apresentação, Ruth anunciou que o setor pretende abraçar a causa da norma da ABNT para redes subterrâneas, e convidou Juliana para falar de projetos do setor público.

Juliana, da Poli-USP, apresentou o papel dos empreendimentos na incorporação das SBN. “A gente tem um contexto em que sai das bacias naturais, modifica os territórios e compromete a capacidade que o território tem de fazer armazenamento e tratamento dessas águas. Num contexto em que os eventos climáticos extremos exacerbam os problemas relacionados à água, como as cheias severas, os eventos de seca e o calor extremo, a lógica da engenharia sustentável, que incorpora as soluções baseadas na natureza no território, funcionando em conjunto com as soluções cinzas, traz a possibilidade de converter o território em espaços mais permeáveis, onde a gente possa usufruir de serviços ecossistêmicos tão valiosos.” Ela lembrou que o conceito vem de longa data. “Esse termo tem ganhado cada vez mais força, felizmente, incorporado agora aos cadernos, aos catálogos e à normatização. Mas esse desejo de fazer um manejo mais sustentável dos territórios já vem de longa data, com outros termos, como design sensitivo e infraestrutura verde e azul.”

Segundo ela, os empreendimentos têm uma vantagem de partida. “Nas áreas urbanas, a gente tem a organicidade do crescimento do território, que limita as possibilidades de aplicação desses elementos na paisagem. Nos empreendimentos, a gente tem a possibilidade de trabalhar o território dentro de um horizonte de planejamento e também de espaço disponível, por conta do ordenamento da ocupação. É uma oportunidade importante para fazer a adoção desses sistemas e ter os benefícios dentro da paisagem como um todo.” As vantagens, disse, são mais palpáveis no setor. “Embora a gente fale muito dos serviços ecossistêmicos, isso ainda é um pouco virtual, de forma geral, para as pessoas. No setor de empreendimentos, a gente consegue enxergar com um pouco mais de clareza as vantagens de implantar esses dispositivos, e isso vem através das certificações ambientais, do acesso a linhas de financiamento diferenciadas e também a mercados mais exigentes.”

Juliana apontou as técnicas em uso. “Quando a gente olha esses territórios, que antes mantinham uma paisagem de espaços livres muito empobrecida, hoje consegue entrar com as soluções baseadas na natureza e trazer todos esses serviços ecossistêmicos, por meio de técnicas diversas, como telhados verdes, paredes verdes, jardins de chuva, biovaletas, canteiros pluviais e wetlands construídos para tratamento. Essa é a grande beleza quando a gente pensa nos empreendimentos.” A engenheira afirmou que o setor já age. “A indústria, o comércio e os loteamentos já vêm adotando essas técnicas dentro dos espaços livres disponíveis. O setor imobiliário já vem tomando a frente nesse processo. No setor privado, isso está bem estabelecido: já se modela a eficiência dessas técnicas no território, o quanto elas conseguem amortecer de vazão e tratar cargas difusas, e a gente já vê o setor imobiliário respondendo a isso.”

O movimento, segundo ela, também chega ao setor público, e o caso apresentado foi o da CDHU na Vila Cristina. “Nesses projetos que envolvem o setor público, a gente vê as SBN entrando como a possibilidade de trazer para o território ganhos paisagísticos e ganhos em termos de qualidade da água, para enriquecer esses territórios.” A área estava sujeita a risco de movimento de massa em um anfiteatro. “O que prevaleceu como decisão de projeto foi que essa área se beneficiaria muito mais se a gente tivesse técnicas de bioengenharia empregadas e outras técnicas que gerassem o enriquecimento da qualidade da água do território, para que essa população, em estado de vulnerabilidade, pudesse se beneficiar desse enriquecimento ambiental proporcionado por essas técnicas.” Foram elencados biovaletas, escadas hidráulicas, jardins de chuva e wetlands construídos, espacializados no território e acoplados à infraestrutura cinza. “A infraestrutura verde não é inimiga da infraestrutura cinza, ela vem para somar e dar mais resiliência ao sistema. O que resultou desse processo todo é uma paisagem resiliente, promotora de serviços ecossistêmicos.” Juliana concluiu: “Trabalhar com soluções baseadas na natureza tem esse significado de reconexão. Quando a gente olha os projetos, os cases, é isso que observa: a população se beneficiando de tudo isso e se reconectando com os elementos naturais.”

Marcelo Novaes apresentou a experiência com condomínios horizontais. “Vou falar um pouco sobre os condomínios horizontais, as soluções baseadas na natureza, visando muito a qualidade de vida dos moradores. Hoje qualquer cidade com mais de 50, 60 mil habitantes, ou menos até, está tendo um condomínio horizontal, fechado, com toda a área de lazer.” Ele se apresentou como arquiteto paisagista formado em 1980, com atuação desde 1975, de uma família ligada a plantas e orquídeas. “A gente tem um escritório em Campinas, mas faz projetos em todos os lugares, desde casas pequenas até grandes projetos, e nos especializamos em projetos de condomínios horizontais já há alguns anos.” Para ele, o ponto de partida é o que o morador busca. “A casa é ainda apenas um lugar para dormir? O que as pessoas passaram a buscar nos dias atuais? Hoje em dia a casa é muito mais que um simples abrigo.”

Marcelo destacou a mudança trazida pela pandemia. “Na pandemia, mudou a forma como as pessoas enxergam o morar. A casa deixou de ser simplesmente abrigo para se tornar um escritório, um lazer, uma academia, uma escola, um espaço de convivência e tudo mais. A natureza tornou-se muito mais valorizada, porque o contato do homem com a natureza é uma das principais coisas, é aquilo que faz o homem voltar às suas origens. Traz mais tranquilidade, mais harmonia, e o mercado passou a valorizar esses espaços.” Ele lembrou que o papel do paisagismo evoluiu junto. “Popularizou-se a conexão do paisagismo com os conceitos de biofilia, saúde mental, conforto térmico, caminhada e lazer. Em 92, eu era contratado para fazer simplesmente o projeto de vegetação. A partir de 97, a gente passou a ser contratado junto com o arquiteto para desenvolver o projeto. Mudou muito esse conceito.”

Ele trouxe seis condomínios de diferentes orçamentos, com uma premissa comum. “Independentemente do orçamento que você tem, todos os equipamentos e as necessidades dos moradores são as mesmas. Então você tem que atender visando a qualidade de vida deles.” Em Engenheiro Coelho, em um condomínio de lotes de 250 metros quadrados, a rua usa árvores nativas de floração em diferentes épocas. “Toda vez que a pessoa entrar nesse condomínio vai ver uma rua florida, o que atrai pássaros, e a gente também usa algumas frutas para atrair a fauna.” A área de lazer se liga a um bosque. “Tem uma quadra de areia, beach tennis, um campo de futebol, uma quadra de vôlei de grama, playground, academia ao ar livre e pista de caminhada. São elementos de custo baixo, porém atendem às necessidades e valorizam a qualidade de vida dos moradores.” Em Bauru, na Fazenda da Mata, do Grupo Zopone, ele descreveu um clube com pomar e uma pista de caminhada que circunda o bosque. “Repare que a vegetação é muito exuberante em volta das áreas de convivência, que se integram com uma mata nativa tombada que está fora do condomínio, mas que a gente acaba integrando visualmente ao paisagismo.”

O paisagista contou como a prática orienta o projeto. “Eu fiz um condomínio há um tempão, mais simples, e o próprio condomínio começou a fazer, no estacionamento do clube, feiras de produtos especiais, como orgânicos e queijo, e festa junina. A partir dessa análise, aprendendo com o uso, nós criamos uma praça, e agora a gente engloba isso em todos os nossos projetos: uma praça de convivência que pode receber food truck, festa, feira, uma integração entre os moradores.” Em Campinas, um projeto reúne quatro condomínios. “Aqui são lotes de 450 metros quadrados, aqui vai de 500 até 1.000, e todos eles têm o seu clube. Nos cruzamentos, a gente cria um piso diferente, um pouco mais alto, para que o carro já pare, com uma área de baixo tráfego e de diminuição de velocidade, justamente para valorizar os pedestres.”

O Entreverdes, em Sousas, tem lotes acima de 1.200 metros quadrados e está em uma APA. “Ele se chama Entreverdes porque tem quase 50% da sua área de mata preservada. Tem uma série de exigências, mas com uma grande área verde.” Marcelo descreveu a avenida que liga o condomínio à Rodovia Dom Pedro. “Foi feita uma avenida, a Avenida Mackenzie, que liga a Dom Pedro ao condomínio, com 7 quilômetros. Demos a ideia ao empreendedor de fazer uma coisa totalmente diferente, para que, quando a pessoa sair do trânsito caótico, entre numa avenida mais larga, mas com uma vegetação muito exuberante. Usamos, ao longo desses 7 quilômetros, quase mil ipês, com trechos de cores diferentes, para florir de maio a outubro, novembro. E, como tem toda uma topografia, você cria uma perspectiva.” A via ganhou um uso inesperado. “A gente nunca pensou que o público ia utilizar essa avenida como um parque linear. Você vai lá durante a semana, no fim de semana, e vê gente correndo, andando de skate, de bicicleta, criança, pessoa andando com carrinho. Virou um parque linear.” O condomínio tem ainda uma horta comunitária. “Esse projeto já tem uns dez anos, é muito bem cuidado e a horta atende os moradores de uma forma bem adequada.”

Na Fazenda da Grama, que começou voltada ao golfe, ele recriou uma mata em torno de uma nascente. “Não tinha nada quando eu fiz. Fiz uma mata nativa só com plantas nativas, e hoje você vai lá e parece que isso já existia há muitos anos.” O escritório também montou um viveiro antes do projeto. “Quando o condomínio estava em aprovação, eu fiz uma lista de plantas, de variedades, e compramos essas plantas pequenas. Além de o custo financeiro abaixar, você consegue usar espécies mais especiais, mais raras, já num porte adiantado.” Por fim, apresentou a Quinta da Primavera, já lançada e em execução. “O clube é o centro do condomínio, e o condomínio se estende por todas as áreas. Aqui nós temos a parte de hipismo, a praça central, uma área de convivência, e a sede, que é uma casa de fazenda antiga, além da pousada, da área esportiva com academia e piscina coberta, e de um grande lago.” A piscina foi desenhada de forma orgânica, com um córrego que nasce atrás do spa. Marcelo encerrou com uma síntese. “Paisagismo não é o complemento do empreendimento, é parte da estratégia que transforma um loteamento em um lugar para viver.”

Paulo Velzi, engenheiro civil da Sobloco, apresentou a Riviera de São Lourenço, em Bertioga, para fechar o painel com a visão de operação e manutenção. “A Riviera de São Lourenço é um loteamento que tem mais de 40 anos. As obras começaram em 1981, e eu estou aqui desde essa época. Ela fica exatamente no centro do município de Bertioga e tem 9 milhões de metros quadrados.” A Sobloco, contou, é uma empresa tradicional. “Foi fundada em 58, e hoje tem mais de 100 edifícios construídos em São Paulo e vários na Riviera, e mais de 11 milhões de metros quadrados em desenvolvimento urbano.” O bairro fica entre dois parques estaduais, o da Serra do Mar e o da Restinga de Bertioga. “Temos população fixa de cerca de 20 mil pessoas, e a população flutuante chega, nos últimos dez dias do ano, no pico da temporada, a 90 mil pessoas.”

O desenho distribui o verde pelo bairro. “Nenhum lote encosta no outro. Entre todos os lotes, você tem uma área verde, e a área verde é super bem distribuída pelo loteamento inteiro.” Paulo explicou que as áreas dos 20% obrigatórios de áreas verdes são complementadas por áreas privadas. “A gente tem áreas verdes privadas a mais na zona turística.” Faltam cerca de 30% para a conclusão do loteamento. A drenagem, segundo ele, é onde começam as experiências com SBN. “O nosso sistema de drenagem tem 53 quilômetros de redes. Há canais perpendiculares à praia, e são poucas as galerias, porque a gente usa sarjetão principalmente, e galeria só em algumas avenidas. Os canais que chegam à praia têm uma parte em concreto por causa do embate do mar, mas os outros, que estão em área verde, foram simplesmente escavados e gramados, e os que estão dentro da mata nós simplesmente escavamos.” Na avenida principal, o canal foi ampliado. “A gente tirou uma pista de cada lado e fez um canal com 18 metros de boca em cima.”

A manutenção também segue a lógica da natureza. “A manutenção é feita manualmente, não é uma limpeza feita com maquinário. O canal tem um revestimento que não é nem de grama, é de mato. A gente faz manutenção de gramados com equipamento, mas no canal o corte é feito manual.” E resumiu: “A Riviera não foi projetada pensando no conceito de cidade-esponja, mas ela é um bairro-esponja. Nós fizemos tudo usando a natureza.” O revestimento verde ajuda a reter a água. “O canal, tendo um revestimento verde, tem um arrasto menor, ou seja, a água perde um pouco de velocidade, e, como a boca dele é muito grande, a gente consegue segurar por muitas horas.”

A gestão do bairro cabe à Associação dos Amigos da Riviera de São Lourenço. “Antes mesmo da primeira venda, nós criamos uma associação de amigos exatamente para fazer a gestão do bairro. Ela tem um conselho pleno, com os empreendedores e os moradores, uma diretoria eleita e as gerências: segurança, administração, manutenção, que na realidade é a zeladoria, e o pessoal de saneamento. Nós fazemos todo o serviço de saneamento também.” O sistema de água e esgoto funciona em ciclo fechado. “Tem a captação de água, a estação de tratamento, o laboratório, a distribuição, o recolhimento e a estação de tratamento de esgoto, que também é um processo totalmente natural, e daí a água volta para o rio com tratamento terciário. O lodo, que antigamente ia para um aterro sanitário, hoje é secado e vai para uma empresa que o transforma em adubo. O nosso ciclo de água e esgoto é totalmente fechado: a água entra, sai, e nós devolvemos 80% dela.” Os resíduos de poda também são aproveitados. “A Riviera tem 32 bairrinhos dentro dela, e cada dia a associação passa em um lugar. Os resíduos vegetais são coletados, levados para um local perto da lagoa de esgoto, onde são tratados e se transformam em composto, ou são levados para uma empresa que vai reciclar a madeira e usá-la de outra forma.” A substituição de árvores de rua por espécies nativas avança aos poucos. “Estamos substituindo as árvores agora, aos poucos e conforme a necessidade, por árvores nativas. Temos também um viveiro enorme de árvores nativas que são próprias para ruas.”

O bairro foi testado em fevereiro de 2023. “A Riviera é calculada para uma chuva de 100 anos, equivalente, mais ou menos, a 500 milímetros. Nesse dia, no Carnaval, choveu 682 milímetros. A água subiu, ultrapassou um pouco o canal, ainda mais que a maré estava muito alta, mas três horas depois da chuva, e não era chuva, era um lençol de água, uma coisa absurda, a água tinha voltado ao seu leito e os canais estavam normais. Tivemos pouquíssimos problemas, enquanto outras áreas do litoral sofreram demais.” A lição vale para novos empreendimentos. “A gente chegou à conclusão de que temos que pensar, nos novos empreendimentos, em usar as áreas verdes o mais distribuídas possível dentro do empreendimento. Essas áreas verdes podem ser parques, podem ser o que for, mas elas têm que existir.” Ele citou uma tese de mestrado de um engenheiro da equipe, que comparou a percolação da água de chuva no solo arenoso, na grama e na mata e concluiu que a mata leva muito mais tempo para saturar. “O fato de termos essas áreas verdes distribuídas ao longo de todo o empreendimento fez com que a gente conseguisse escapar dessa grande chuva. Ficamos muito felizes, e o resultado é que a cidade de Bertioga está mudando, aos poucos, todo o seu sistema de drenagem para 500 milímetros, como o nosso, para 100 anos de chuva.”

O post SBN na Prática “parte 2” traz cases de espaço público, condomínios e de um bairro planejado em Bertioga com soluções baseadas na natureza apareceu primeiro em SECOVI-SP.

Publicado originalmente em secovi.com.br.


Quer ver uma dúvida respondida? Pergunte ao ecossistema.